Confira as dúvidas enviadas ao Jornal Nosso Bairro em Pauta, pelos pais e professores das escolas parceiras do projeto, sobre a rotina e as atitudes das crianças e adolescentes. As perguntas foram respondidas pela professora e psicóloga Marianne Montenegro Stolzmann Mendes Ribeiro, da Universidade Feevale.
NBP - Por que as crianças têm receio de experimentar algo novo?
Marianne - “Isso varia da idade da criança, pois há idades em que as crianças não têm receio. Os pequenos experimentam muito, até os pais precisam ficar em cima, porque vão colocar o dedo na tomada, brincar com meleca, pisar na poça de água. Nesse período entre os 2 e 4 anos, eles não têm receio. Com o avanço da idade, eles vão crescendo e se dando conta dos perigos. Talvez esse receio venha dos pais, que hoje tem um olhar mais atento em relação aos perigos do dia-a-dia. Receio não é atitude de criança. A princípio, eles gostam de experimentar novas coisas, aliás, é da infância conhecer novas brincadeiras, objetos e alimentos. Caso os pequenos tenham uma atitude diferente dessa, pode ser devido aos acontecimentos ao seu redor. Mas, se eles estão bem, são curiosos, querem experimentar e conhecer novos materiais, saber de novos jogos. Tudo isso, depende do contexto que as crianças estão vivendo naquele momento”.
NBP - Como fazer uma criança se soltar nas atividades diferenciadas?
Marianne - “A criança vai se entregar nessas atividades quando ela fazer algum vínculo com essa pessoa que está propondo. Antes de apresentar qualquer ideia, é necessário criar um laço, mas isso precisa ser feito da maneira mais espontânea e livre. Uma criança pequena ainda não está em uma condição emocional e cognitiva para entender as coisas estruturadas. Elas precisam de algo mais lúdico, para fazer esse vínculo. Então, antes de propor uma atividade, precisamos conhecer as crianças, para que a partir disso elas possam aceitar realizar as atividades”.
NBP - Por que as crianças mordem?
Marianne - “A criança quando é muito pequena, entre dois e três anos, ela está começando a falar mais, adquirindo um vocabulário maior e se expressando e se fazendo entender. Antes disso, ela é muito corpo, é muita ação. Por exemplo: se ela quer água, ela precisa ir lá e mostrar onde tem aquilo que ela está solicitando. Quando começa a falar, já pode representar o que quer de uma maneira mais simbólica. A mordida ocorre ainda na fase em que a criança precisa muito do concreto. Ao mostrar os seus sentimentos por outra pessoa, muitas vezes acaba mordendo, expressando o seu carinho ou discórdia. Dependendo da fase, pode ser uma forma de se apropriar um do outro. Se a criança tem um amiguinho que gosta muito, ela não tem noção de falar ‘Eu gosto muito de você’. Então, ao expressar o sentimento acaba mordendo, isso é normal. Já uma criança mais velha que morde, requer um olhar um pouco mais cuidadoso sobre ela. A mordida em determinada fase é natural, mas é claro que precisamos sempre dizer que ela não pode morder as pessoas”.
NBP - Como lidar com crianças e adolescentes hiperativos?
Marianne - “A hiperatividade pode ser uma forma da criança apresentar, através do seu comportamento, o que está sentindo. Através desse sintoma, podemos perceber também que elas estão passando por alguns conflitos ou questões, seja em casa, na escola, com a família ou com os amigos. O corpo manifestará de alguma forma essa insatisfação ou problema. As crianças e adolescentes demonstram que não estão bem através da agitação. Não sabemos exatamente como lidar, pois não há receita para essas situações, mas temos que verificar situação por situação. Hoje nós sabemos que esse comportamento pode ser devido à falta de espaço nas casas, porque as crianças não brincam muito na rua, os adolescentes não podem sair de casa a qualquer hora por causa da violência, isso vai limitando a prática de atividades externas. Por isso, nas escolas é necessário a prática de esportes, ações ao ar livre, propor passeios, deixar elas correram e brincam para extravasar. As crianças e adolescentes precisam de um tempo e de uma atividade para poder gastar essa energia”.
NBP - Qual é a importância da família no sucesso escolar?
Marianne - “A importância da família é em tudo, não só no sucesso escolar, mas na saúde mental própria da criança e do adolescente. As famílias com relações mais afetivas, de cumplicidade, de um olhar mais cuidadoso e acompanhando a trajetória do seu filho na escola, facilitam muito e têm uma importância muito grande na educação desses estudantes. Sabemos que há situações que precisam ser resolvidas pela família e outras pela escola. Uma educação mais formal é da escola, já uma educação mais ampla, informal, dos laços, do respeito é feita dentro de casa. Por exemplo, se uma criança desrespeita um professor, nós temos que ver o que está acontecendo em casa. O respeito com o pai, a mãe e as outras pessoas precisam ser construídos dentro de casa. A importância da família é muito grande, mas às vezes os pais precisam ser orientados. Vejo alguns em dúvida em relação as suas decisões e atitudes. São muitas questões em relação à condução da educação, que precisa de limites, de respeito e de autoridade, sempre explicando as regras, mas fazendo as crianças cumprirem também. Se as crianças não têm limites construídos dentro de casa, ela não vai ter na escola”.
NBP - É importante dizer não para os filhos?
Marianne - “É fundamental! O ‘não’ é mais importante que o ‘sim’, pois ele é estruturante. Durante o crescimento da criança é necessário dizer ‘não’ para ela saber o que pode ou não fazer. Assim os pais vão regulando os ciclos e rotinas, e, isso vai estruturando o sujeito. Dizer ‘sim’ é uma barbada, já um ‘não’ é um compromisso. O ‘não’ é muito mais trabalhoso, mas ao dizer ‘não’ é necessário explicar, conversando com as crianças e adolescentes. Para que tu possa dizer o ‘não’ é preciso estar seguro, e às vezes os pais ficam em dúvidas. Nesses casos é interessante que eles peçam orientação, seja da escola ou de um profissional, questionando se está certa essa atitude. Se esses pais tiverem segurança no que estão fazendo, eles irão dizer o ‘não’ firme e um ‘não’ que a criança vai conseguir sustentar”.
NBP - É importante estabelecer rotinas tanto na infância, quanto na adolescência?
Marianne - “Sim. É claro que essas rotinas não podem ser inflexíveis. As crianças adoram ter uma rotina, aliás, todos nós gostamos de rotina. Mas a gente também gosta de romper de vez enquanto esses compromissos pré-agendados. É muito importante poder romper, mas é necessário ter rotina para ter uma vida organizada, com horário para fazer as coisas. A rotina não pode existir pela rotina, isso não é um exercício de poder sobre a criança. A rotina é para dar as bordas e limites que elas precisam ter para poder se organizar. Os adolescentes também, os pais podem falar as opções possíveis para cada atividade e a partir disso eles escolherem o que querem dentro daquele contexto. Não se pode deixar somente uma opção. Os limites de uma criança e de uma adolescente são diferentes, pois cada idade demanda situações diferentes. Os pais precisam ajustar esses limites conforme as idades, pois não podemos exigir as mesmas coisas para as diferentes etapas da vida. Então, é importante que os limites sejam colocados bem claros, para que as crianças e adolescentes possam saber o que fazer dentro da sua rotina”.
Quem é Marianne:
Marianne Montenegro Stolzmann Mendes Ribeiro atua como professora na Universidade Feevale há 15 anos, ministrando as disciplinas de psicopatologia na infância e adolescência, psicanálise, estágio básico, estágio profissionalizante, entre outras. Formou-se em 1991 em Psicologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Em 1999 tornou-se mestre em Psicologia Clínica pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Atualmente é coordenadora do Centro Integrado de Psicologia (CIP) da Universidade Feevale. Tem experiência na área de Psicologia, com ênfase em Psicanálise, atuando principalmente nos seguintes temas: psicanálise, clínica da infância, adolescência e vida adulta, saúde mental, saúde pública, intervenção terapêutica e dificuldades de aprendizagem.
Você também tem alguma dúvida? Envie suas questões para o Jornal Nosso Bairro em Pauta através do e-mail nossobairro@feevale.br. Elas serão respondidas por uma psicóloga e publicadas anonimamente na próxima edição do periódico.

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